domingo, 1 de outubro de 2017

VINTAGE

o reflexo da não-paisagem
traz nunca
a mesma  cena
faz com que eu nunca volte
ao ponto faz com que não
tenha certeza
se um dia fui embora

sábado, 24 de junho de 2017

NETUNE

está escrito:nunca
ninguém escreverá pra mim um bilhete
maldita música um
poema
sequer uma resposta em pensamento
a tempo
minha carta natal só tem: remetente
garrafa ao mar
melhor jogá-la pela janela

tento mas não me acho
eu leio as estrelas os arcanos
digo umas palavras  escrevo outras
paradas sobre você e pra nós mas
a mim o céu não vê
a bola é puro cristal

jamais conhecerei o azul do meu umbigo

há tempos tô fora disso
estava escrito desde antes
deu nascer e em 1987 quando eu nasci
apagou-se:

segunda-feira, 22 de maio de 2017

0 º

. estou debaixo do marco 
zero com a graça do bom deus
acho que esqueci meu nome
acho que esqueci o nome 
de deus o diabo
essas coisas de fé foram pra mim
na época que as ruas andavam cheias
de polícia mas agora não 
tem mais polícia e eu não sei
o que faço com nenhum crime 
esse coração na mão na boca 
do povo na boca principalmente
de muitas mulheres da américa, meu amor
todo meu desengano minha palavra
segue feito: lâmina ou: domadora
de leões, cadeira na mão chicote na 
outra olho no olho da fera cá estou 
bem debaixo do marco zero
com o consentimento da física
a palavra é o próprio estúpido
buraco de minhoca encurta
aumenta distância tempo e espaço aqui tudo 
já é e já era. há eras e eras está provado
me encontro debaixo deste marco zero
por mil poemas e a força de muitos desertos 
vestígios de areia por todo lado, é claro
calor, frio, whatever
embora pareça toda toda nos retratos
embora no alto uma grande placa um letreiro 
antes com frases de 
apelo agora marca exatamente impressionantes 0º
não tem palavra, cortei tudo
na garganta um corte de ponta a ponta
eu não sei o que tenho na cabeça eu 
não tenho mais cabeça eu
levo 
a cabeça suspensa no alto leio debaixo 
do marco zero a próxima tarefa:
se lembre de seu nome pra depois
abandonar, a última coisa que resta

segunda-feira, 1 de maio de 2017

MEIO CHEIO

chove pingos suados de
secura sofrência é gente
tirando foto com pau de selfie
na frente da queda d'água e não
ter queda nenhuma bem na hora
da crise hídrica da região sudeste
o prefeito continua repetindo o próprio
sobrenome aos borbotões continua
naquela de calma calma calma não
criemos pânico tenhamos fé que vai 
chover então choverás
olhando assim pro céu cheio de nuvem
que não morre ainda fico toda boba
pleno séc vinteum e o homem
já tirou sarro da terra plana 
inventou os mutantes os paranormais
pisou na lua olhou diretamente pro Sol sem se cegar
botou sonda em marte e sonda
no intestino delgado mas ainda parece não se interessar
em furar uma nuvem pra transformar
ela em torneira ou tirar o sal da água do mar
reservatório de lágrimas e de corpos
sacos plásticos navios pirata navios
negreiros navios de papel e excluir tudo isso
botar tudo o que restou num copo.

domingo, 23 de abril de 2017

THUNDER

eu lembro como se fosse hoje
do dia que disse quero te beijar
e você daqui a pouco daqui a pouco um minuto 
e eu perguntando agora pode agora pode
espera só mais um pouquinho deixa
eu me preparar eu insistindo fiquei
na dúvida você queria ou não raios
era do jogo ou só outra roleta russa
aí pareceu que do nada você me deu um beijo
deu um beijo bem na boca e segurou minha mão e 
meu corpo virou o lugar mais feliz do mundo
pelo menos por alguns dias
algumas horas tempo que às vezes
volta na minha cabeça o dia que eu trovejei
depois só ficou nessa minha cabeça
cheia de memória uma fumaça
esse caderno de poesia
que vos fala e uma sucessão de dias
que você era um militar de guerra prestes
a cruzar o país e eu ainda meio sem entender
entretida contando quantas cores azuis tinham
dentro do seu olho maldoso

sábado, 15 de abril de 2017

SADE SATI

pelas voltas
roles de saturno
tive que tirar uma por uma minhas calcinhas da corda
mas sem sorrir há um tempo
esqueci justo a escova de dente
pra levar no caminhão
devia ter prendido no corpo
como tantos outros objetos chave
de fenda martelo
espelho um
tablete de paçokita
uma caneta
a carta de despedida que até agora escrevi
33 vezes às vezes no corpo
conforme mudava as estações de rádio 
às vezes esperando um pouco pela trigésima quarta tentativa
ainda sem ter a
bendita
versão final
meio ridícula
ligada à exaustão 
aos trânsitos planetários
não pude deixar de notar
não tem sequer um desenho meu no céu
a não ser essa estrela no ar
que às vezes eu mesma faço 
com o indicador meio torto apontando pra cima
e algumas paredes que ora rabisco
ora me encosto
ora registro o resultado de pesquisas
agora tô até um pouco em paz porque pesquisei o futuro
fui com o pensamento e opa
não temos mais lâminas ou caixotes
achei um envelope.

segunda-feira, 27 de março de 2017