domingo, 9 de agosto de 2015

PEDRO, SOBRE ESTA PEDRA EDIFIQUEI MINHA IGREJA

Contados meus 27 anos de vida, calculo que tenha passado pelo menos metade deles e mais alguns quebrados dedicada só ao seu estudo. Geralmente procedo através da observação e da espera, até que acontece um lampejo qualquer e a atenção fica toda voltada pra entender o efeito do lampejo. É assim: primeiro vem o raio que incide na superfície inteira e depois, ah, depois o barulho, e, ainda depois do barulho é que efetivamente dá pra ver a marca que deixou no espaço todo. O tamanho do estrondo e da marca depende sempre da densidade de suas nuvens ou, dizendo de outro jeito, da quantidade de calor, de energia produzida no atrito entre dois elementos. Permaneço sentada no telhado de casa com minha lanterna e caderno de anotações faz um tempão porque descobri que, apesar de uma queda ou outra, daqui ainda é o melhor lugar pra se cair, sem contar que dessa altura consigo te olhar no olho. Lá e cá surgem algumas chances de fazer considerações ou desenhos. Tenho resultados desanimadores, as conclusões ainda são pouquíssimas. A primeira e mais óbvia é que sua imagem é bem fixa na terra e isso, por motivos que eu ainda desconheço, tornam esse solo muito propício pra, um, com relação às quedas, aplacá-las, e dois, pra causá-las. A segunda é que dá uma determinada hora do dia e o avatar faz uma sombra que parece até que a natureza lhe deve obediência. Em outras parece uma igreja, dá vontade de rezar. Mesmo com a pouca precisão que tenho, imitei algumas pinturas rústicas no umbigo, porque, de tanto olhar, acabei me afeiçoando aos traços. A superfície da pele é mais macia, o contorno não fica igualzinho à dureza da superfície original e de alguma forma já entendi que isso é ok. Se por um lado tem corpo de durão por outro a cara de pássaro aumenta o mistério que sua presença causa. Abro os braços e ensaio um vôo porque, com esse chão que tenho pela frente, basta que se consiga voar uma vez pra achar que se consegue de novo. E de novo e de novo. Metade da minha vida te estudando, sem perceber já começo a incorporar teus traços: a você eu dedico minhas asas.




Nenhum comentário:

Postar um comentário