domingo, 26 de julho de 2015

COMO DESISTI DO CINEMA - PARTE I

andava por aí com a certeza
de que qualquer hora seria inevitável
pegar a embarcação de quase meia-noite,
não sem antes aprender a chegar na rua ouvidor 
e ouvir previsões terríveis, algo como
você ainda vai se arrepender
e outras coisas corriqueiras

chegado o derradeiro quinto mês
a voz ao telefone 
do outro lado da baía
era a mesma há 60 dias
o muleque quase virando príncipe
não fosse a ficha policial extensa
e a nova falta de sorriso no rosto

calma que eu já tô chegando
não importa que eu não devesse ir,
nem que tenha levado grande parte do que não tinha
mas que propositalmente tenha esquecido
meu canivete

a travessia é sempre solitária,
desde que se sabe que o mar
requer estômago e bebida forte
e que é impossível um e outro ao mesmo tempo

eu não sabia que do lado de lá
se andava de carro a 150 por hora
na madrugada anterior
nem que não se dormia à noite
quando a onda é se achar invencível

por hora me chamavam Natasha Romanoff
e eu achava que a isso se devia
meu cabelo às vezes vermelho
ou o globo terrestre
que eu girava entre os dedos
mas talvez seja só
porque talvez me pareça mesmo demais
com uma aranha

a cidade toda protegida
por um índio traidor
agora se iluminava
só pela luz do letreiro do cinema

falávamos sobre investimentos imobiliários
e como afinal parecíamos dois adultos
falando sobre investimentos imobiliários

até que: bang! explosão.
com as palavras eu saí de seu peito a bofetadas,
como se nunca tivesse estado ali,
a cinco minutos do começo do filme

não foi suficiente 
a oração que eu trazia de longe
nem falar da minha recente descoberta
sobre o que acontece com a respiração e com a distância 
quando se está perdidamente apaixonado

acho que poderíamos ter sido cúmplices pra sempre
mas agora era tarde demais
a criatura ficando cada vez mais verde
efeito de um experimento radioativo

depois disso só o que me lembro
é de fugir pelos bueiros
de um terminal rodoviário
de um ônibus a 150 por hora
de um oceano todo escuro
e a rua primeiro de março,
só minha às três da manhã,
quando deu pra concluir, tarde demais,
sempre tarde demais,
eu devia ter ido embora antes

nunca mais passei perto de um cinema
não posso nem mais sentir cheiro de pipoca.

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