domingo, 28 de junho de 2015

6 A.M

covardia é o nome que carrega
e usa como se fosse uma camisa de força
que sustenta à prova de balas, 
beijos ou artimanhas mais perigosas 
que as brincadeiras de pique-esconde 
e falta d’água.

de repente não dá mais pra lembrar
da cor dos seus girassóis
emaranhados no pé da ladeira.
quanto a mim, eu tomava com cuidado,
muito cuidado,
golpes e golpes de estrada:
bebida amarga,
tuas mãos em minhas mãos.

eu tinha medo de te abandonar,
eu tinha cara de jangadeira,
canoa que desce o rio sem aviso
e não retorna,
a menos que pra abrigar os peixes
sem correnteza fixa.
eu tinha cara de água viva
e o dizer ultrapassava meu próprio dizer e rio.

de súbito mergulhei
porque não tinha mais jeito
o sol e a pedra
não tinha mais jeito
música e noite,
animais noturnos
saindo de suas tocas,
e pernas e braços
eram a própria selva amazônica.

confesso que também sentia covardia
mas fazia questão de mantê-la presa
entre os dentes e respirar profundo,
sempre bem consciente de que afinal 
tudo é um risco, meu deus.
por isso eu dizia dance comigo, rápido,
antes que acabe a noite e os charutos,
antes que amanheça.

amanheceu-me.
mas amanheceu-te antes,
e a manhã nasceu covarde
essa nossa filha
que talvez nunca seja bailarina.

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