quinta-feira, 9 de abril de 2015

ESTELAR

escuta só, tem tempo
que não te vejo mais olhando pela janela
e o pior é que tá tudo aí: os boizinhos continuam
lá em cima daquele morro
e ninguém sabe ainda como foram parar lá.
agora existe todo tipo de pipoca colorida
e meus bonecos já são adultos,
também se submeteram a essa coisa amarelada de tempo.

as sementes que jogou por toda terra
agora se espalham pela América do Sul
e, escuta, começaram elas mesmas a dar
seus próprios frutos, alguns por distâncias até mais longas.
acho que isso seria o que chamamos ciclo da vida
ou das plantações ou qualquer bobagem parecida.
o que eu sei mesmo é das crianças todas penduradas
caçando estrelas em cima da árvore
que tem seu nome talhado no tronco com letrinha de
caderno de caligrafia que você ensinou.

tá tudo aí. os ponteiros do relógio continuam girando
rápido pra caramba, a paisagem continua
tomando seu rumo quase inexplicável,
mudando conforme a luz
ou conforme os olhos de quem vê a luz.

não sei se consigo lembrar direito assim,
agora que eu acho que chegou a minha vez de te apresentar o mundo,
então vamos ao que realmente importa,
o que eu tenho pra dizer até aqui é:
não mudou muita coisa. talvez agora a paisagem
não te interesse tanto quanto as bússolas de uma ou outra pessoa,
mas ainda é preciso subir na árvore com as crianças todas,
ainda é preciso respeitar os mais velhos
e ainda é preciso botar uma concha do mar no peito
pra tentar escutar o que tem dentro dele. eu sei
dá um medo danado, principalmente de não encontrar nada.
mas vai por mim, sempre tem.

vai por mim. se der medo do que vê e ouve
ainda terá aquela velha janela te esperando
aquela do seu antigo pai, antiga mãe e antigos filhos
pra lembrar de quando o instante seguinte
era todo feito de doce de leite.

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