terça-feira, 31 de março de 2015

PAPO DE LANCHONETE

eu vou dizer
de uma vez por todas
isso está ficando ridículo,
só acho. perdi a afluência,
só baixa a concretude
da palavra

daria pra levantar uma
cidade aqui. a matéria
de atlântida foi feita
com o que eu não sonhei, 
ou sonhei sim mas não tive tempo
de sonhar mais e agora
a gravidade deixa tudo
submerso

vem sempre alguém 
com um saco de tijolo, dizendo
acho bom você terminar isso antes
do meio-dia

eu tenho na gaveta do quarto 
37 manuais de sobrevivência 
e 15 guias sobre como andar
por terras estranhas. no fundo
parece que é quase a mesma coisa
e talvez na verdade seja

a moça solitária da lanchonete
veste um uniforme ridículo
e pergunta se eu aceito uma degustação
de algo que ela nem provou.
isso está ficando ridículo, 
ninguém aceita um pedaço,
eu é que não aceito mesmo,
nem um pedaço, nem um pedacinho,
ouviu, minha filha?

às vezes prefiro até um saco de tijolo, 
prefiro engolir os tijolinhos todos 
de minha atlântida perdida

acho que a moça precisa 
de um manuel desses
que guardo na gaveta, talvez
mais até do que eu, vai saber
a verdade é que a gente nunca,
eu disse nunca
nunca sabe
o que tem no mar de cada um.

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