terça-feira, 4 de novembro de 2014

DEPOIS DE TANTOS DIAS

foi assim que te vi
pela última vez: agachado,
limpando um machucado
de outra pessoa,
balançando a negra cabeleira
contra um vento quente 
de quase verão.

sempre ocupado,
sempre de um lado pro outro
fazendo sei lá o que
sempre fazendo pose
pra foto.

eu queria que tivesse sido
tudo, tudo diferente.
uma hora dessas
estaríamos tomando cerveja nacional,
você ainda citando Freud
e eu dizendo
deixa disso, não precisa mais 
falar em Freud todo tempo
para fazê-lo presente,
ele está no meio de nós,
ele está nessa batata frita.
às vezes uma batata frita
é só uma batata frita.
vamos nos preocupar 
é com o preço absurdo dessas batatinhas,
depois vamos nos preocupar
em comê-las.
finalmente você riria
de algo que eu disse
e eu pensaria
valeu a tentativa.

eu queria que uma hora dessa
estivéssemos na VM,
vendo as estrelas, as três marias
e a lua de sangue.
a essa altura
a astrologia não seria mais uma estupidez
separando 7 bilhões de corpos 
em no mínimo 12 categorias,

uma hora dessa 
já estaríamos levando a sério
história de pescador,
já estaríamos não levando o outro
a sério, e isso seria suficiente

pra falar um pouco mais alto,
depois pixar os muros 
com mensagens de tristeza e esperança.

eu tenho certeza
que Freud iria gostar
de ter nos visto amigos,
como ele sempre sonhou.

mas tudo acabou.

você continua
fazendo curativos em machucados que nunca fecham
eu continuo machucada
e nós
continuaremos pra lá e pra cá com os band-aids,
levantando a mesma bandeira
em línguas
e continentes
diferentes,
separados
pelo mar.

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