quinta-feira, 11 de setembro de 2014

"Não me entendam mal, mas eu preciso ir embora daqui”.
Assim terminava o bilhete difícil. E assim começava. Não com a pretensão de que assim começasse ou terminasse alguma coisa, na verdade lá pelas tantas, se debatendo com o peso da escolha pelas palavras certas, enfim concluiu que, não adianta o esforço, no fim acabaria por ser mais uma carta com certo ar de drama alforriado do que um simples bilhete. Chegou a fazer um rascunho, explicando os motivos que levavam até a absorta conclusão do fim, toda a prisão que ser quem se é contém, as paredes grossas crescendo como heras em torno de um eu inventado e que, apesar de também inventado, de alguma forma já sentiu felicidade ao caminhar pela rua. A espera de que algo mudasse e o cansaço da inútil espera.  É o que não conseguia terminar e no entanto era preciso. Pensou em tudo que iria perder assim que enviasse sua mensagem e alguém a recebesse, tornando pública sua decisão de não saber se um dia volta. Pensou na saudade que sentiria de sua própria voz, falando com algumas pessoas, a voz dessas pessoas em retorno, a lembrança de momentos felizes, momentos em que o amor esteve presente nem que de forma emprestada, momentos em que não incomodava a folha demorar tanto a cair e quando vê já caiu desavisada, momentos em que o sapato não estava tão apertado e era seguro respirar. Essas coisas todas agora eram como miragem, e era preciso ir embora. A saudade que sentia é de tudo já ter passado e agora só restar o que se imagina e o que se imagina é que não se tem para onde ir. E por isso mesmo era preciso ir.  É por isso que se vai. Depois do rascunho, o rascunho dessa frase. E qual frase não é rascunho?  E qual história não é?  Assinou com seu nome. E foi rascunhar outra coisa.

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