sexta-feira, 12 de setembro de 2014

AGORA É TARDE, INÊS É

Ia acontecer de alguma maneira. É assim com todo mundo. Mas não com você. Eu queria dizer vai com Deus mas não tenho certeza que esse Deus lhe merece. Eu sabia que você não podia mais morrer, senão Deus é que estava no fim.  Justo você, que viveu uma vida inteira como quem está em prece. Fico repetindo que essa reza toda não foi em vão, Maria Inês dos Santos. Se serve de alguma coisa, eu aprendi muito com você. E quando digo aprendi não me refiro só a regar as batatas no forno com manteiga e esperar dourar por mais 10 minutos. Eu aprendi a não desistir. A persistir com resignação calma depois de uma tempestade de revolta. Eu aprendi cada dia um pouco mais o que a Sonia quis dizer quando disse que todo mundo é adotado. Entende? As coisas são construídas e você me mostrava isso com mão na massa. E então o meu pesar pelos aflitos é porque sou aflita eu mesma? Não podia ver seu olhar desviado que queria logo sair correndo e te contar uma coisa bonita. Não podia ver desviarem-lhe o olhar que sentia raiva e vontade de dizer ao mundo poucas e boíssimas verdades. E de que adiantam minhas verdades se o que nos move é nosso desejo? Eu desejava você, Maria Inês dos Santos. Eu desejava o impossível. Tinha o capricho de querer que fosse da minha família também no sangue, se pra mim já era bem mais do que muitos consanguíneos meus. Dividimos sangue de gente simples. De gente dada a sentir vergonha e mesmo assim continuar. De gente amarga e alegre ao mesmo tempo. Eu desejava que fosse feliz.  Eu desejava tanto o seu riso. Não só porque era bom te ver rir apesar  dos que não a amavam, mas  eu pensava que não podia ter outro jeito de você ser. Você era curiosa e estava sempre tentando descobrir coisas,  como quem passa uma vida inteira a tentar descobrir sobre seu próprio nascimento. As conclusões precipitadas deviam vir do que fantasiou com a pouca informação que tinha sobre si mesma. Será assim com todos? Por que às vezes aquilo me irritava tanto? Eu fico triste porque acho injusto, quase um desperdício uma voz tão doce e ninguém querer ouvir. Tinha em você mais poesia que qualquer bobagem dessas de Torre Eiffel, mais concreta e tão mais mal construída! Melhor que qualquer canção. E porque eu também errei muito, eu também tinha outras coisas mais importantes pra fazer, agora eu fico te procurando pelos cantos, procurando o seu empurrão na hora do meu abraço. O que dói é falar as coisas agora no passado mais como uma tentativa de acostumar-me a dizer a frase no passado mesmo. Dizer "era". Você "era" muito viva, "era" um pouco bruta, tanta timidez justificada pelas portas fechadas.  Chegavam a dizer que você era um bicho. Se era um bicho, de agora em diante eu pretendo viver a latir e a uivar só pra honrar sua memória.

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